Tarot, Ocultismo e Modernidade

As origens surpreendentes do mais incompreendido Oráculo

O tarot, sua origem, os diversos jogos de cartas e sistemas de consultas, jogos lúdicos e adivinhatórios, afinal, o que é realmente o jogo de tarô?

O Papa, O Imperador, A Imperatriz, O enforcado, O carro, O Julgamento… Com sua iconografia centenária, essa mistura de símbolos antigos, alegorias religiosas e eventos históricos, as cartas de tarô podem parecer ultrapassadas.

Para pessoas céticas, práticas supostamente “ocultas” como a leitura de cartas têm pouca relevância em nosso mundo moderno. Mas um olhar mais atento a essas obras-primas em miniatura revela que o poder dessas cartas não é dotado de alguma fonte mística e sim, vem da capacidade de suas pequenas imagens estáticas iluminar nossos dilemas e desejos mais complexos.

Ao contrário do que a maioria das pessoas pensam, o significado das cartas do tarot muda ao longo do tempo, moldado pela cultura de cada era e das necessidades dos usuários individuais. Isto se dá porque a maioria delas trazem símbolos e alegorias ou eventos familiares de muitos séculos atrás.

TAROT E SUA HISTÓRIA

Até o século XVIII, as imagens das cartas do tarot eram acessíveis a uma população muito mais ampla, pois tratava-se de um simbolismo natural, tradicional e coerente. Em contrapartida, aos “tarôs modernos” e pretensamente esotéricos foram acrescidos tantos sinais e símbolos que, para os leigos, não fazem o menor sentido (e para muitos estudiosos sérios também).

Meu primeiro jogo de tarô foi o Tarot de Marselha, publicado pela editora Grimaud em 1969, e eu recentemente retornei a ele, depois de não usá-lo por um bom tempo, e creio que, como para a maioria dos tarólogos, revisitar baralhos antigos é sempre uma experiência enriquecedora.

Presumivelmente criado no século 17, o Tarot de Marselha é um dos tipos mais comuns de baralho de tarô já produzido. Os tarôs de Marselha originalmente foram impressos em blocos de madeira e mais tarde coloridos à mão usando stencils básicos.

Entretanto, usar o tarot para a adivinhação provavelmente é algo anterior ao século XV, possivelmente originado com as cartas de jogo Mamluk, trazidos da Turquia para a Europa ocidental.

O TAROT COMO ARTE

Houve no período do Renascimento, onde um monge beneditino chamado Teofilo Folengo escreveu poemas em que o destino e as características dos indivíduos são revelados pelas cartas de Tarô que lhes eram dadas. Seus poemas de Tarot aparecem em seu trabalho de 1527, Caos del Triperiuno, escrito sob o pseudônimo Merlini Cocai.

Em um dos sonetos, ele encontra espaço para mencionar todos os 22 dos Arcanos maiores em uma competição de vanglória entre o Amor (o nome da carta Os Enamorados naquela época) e a Morte personificada como fêmea, como no macabro e magnífico afresco de 1480 de Giacomo Borlone de Buschis em Clusone, onde todos os poderes deste mundo se curvam diante de La Morte.

O autor monacal era um testemunho vivo do poder do Amor. Abandonou seu mosteiro e percorreu a Itália com uma jovem encantadora da nobreza chamada Girolama, embora voltasse ao claustro, na Sicília, em busca de uma morte pacífica.

O uso que fazia Teófilo das cartas do tarot para compor a poesia começou uma mania literária entre a nobreza italiana do século XVI em um jogo que veio a ser conhecido como Tarocchi apropriati, ou “Tarot Apropriado”.

A aristocracia italiana desfrutava deste jogo, no qual, aos jogadores eram distribuídas cartas determinadas e usava-se associações temáticas com essas cartas para escrever versos poéticos uns sobre os outros.

Em seu aspecto jogado, descrito por Girolamo Bargagli em Siena em 1572, a cada jogador era atribuído um arcano de tarô por um oponente, que então teria que explicar a razão para a atribuição de uma maneira espirituosa ou gentil, geralmente poeticamente, o que robusteceu esse gênero literário.

Como descrito por Paul Huson em Mystical Origins of the Tarot (Destiny Books, Rochester VT, 2004), “Aqui os arcanos eram selecionados por um jogador e apresentados a outro, que os interpretava tematicamente por um processo de associação de ideias criando versos sobre si mesmo, sobre outra pessoa, ou mais popularmente, para elogiar certas senhoras bem conhecidas ao redor da corte”.

Muitos escritores foram inspirados pelo Tarot para muito além da idade média.

A Torre e o Pendurado fascinaram W.B. Yeats, cujos diários mágicos são preenchidos com leituras pessoais de Tarot e era completamente familiar, como um adepto, do uso dos Arcanos Maiores em magia cerimonial pela Ordem Hermética da Golden Dawn.

A profunda conhecedora e autora de livros sobre o Tarot e competente romancista, Rachel Pollack publicou uma antologia chamada Tarot Tales e mais recentemente produziu uma estranha e maravilhosa coletânea de histórias de tarô, The Tarot of Perfection.

Em um posfácio de seu romance O Castelo dos Destinos Cruzados (publicado no Brasil pela Companhia Das Letras em 1991), Italo Calvino descreveu Tarot como “uma máquina para construir histórias”.

O TAROT COMO DIVERSÃO

Mesmo os mais antigos tarôs conhecidos não foram projetados com misticismo em mente. Eles foram na verdade criados para jogar um jogo semelhante aos RPGs modernos. Famílias ricas na Itália encomendavam dispendiosos jogos de cartas de tarot artesanais conhecidos como “carte da trionfi” (cartas de triunfo).

Essas cartas eram marcadas com os símbolos de taças, espadas, moedas e bastões de polo (eventualmente trocados por bastões de madeira ou varinhas) e cartas com representantes da corte, consistindo de um rei e dois subordinados masculinos e dos Arcanos Maiores. As cartas de tarô mais tarde incorporaram também as rainhas e O Louco ao conjunto, para um baralho completo que normalmente totalizava 78 cartas.

Portanto, na origem das cartas do tarot, as mesmas não eram utilizadas para adivinhação e sim para um jogo lúdico e divertido.

Originalmente, o significado das imagens era paralelo à mecânica do jogo. O sorteio aleatório das cartas criava uma nova narrativa única cada vez que o jogo era jogado e as decisões que os jogadores tomavam influenciavam o desenrolar dessa narrativa, onde cada jogo de cartas criava sempre uma nova aventura.

As imagens foram projetadas para refletir aspectos importantes do mundo real em que os jogadores viviam, e o simbolismo cristão proeminente das cartas do tarot são um reflexo óbvio do mundo cristão em que eles viveram.

A medida que o uso divinatório se tornou mais popular, as ilustrações evoluíram para refletir a intenção de cada artista, onde foram adotados significados cada vez mais “esotéricos”. Contudo, geralmente mantinha-se a tradicional estrutura do tarô de quatro naipes de jogo (semelhantes às cartas numeradas em um baralho de cartas normal), figuras da corte (reis, rainhas, cavaleiros e pajens) e os Arcanos Maiores do Tarot.

O TAROT NA IDADE MODERNA

Em meados do século XVIII, as aplicações místicas das cartas se espalharam da Itália para outras partes da Europa. Na França, o escritor Antoine Court de Gébelin afirmou que o tarô foi baseado em um livro sagrado escrito por sacerdotes egípcios e trazido para a Europa por ciganos da África.

Na realidade, as cartas do tarô precederam a presença de ciganos na Europa, e os quais, na verdade, vieram da Ásia e não da África. Independentemente das suas imprecisões, a história de nove volumes de Court de Gébelin foi altamente influente.

O professor e editor Jean-Baptiste Alliette escreveu seu primeiro livro sobre o tarô em 1791, chamado “Etteilla, ou L’art de lire dans les cartes” (Alliette criou este pseudônimo místico “Etteilla”, simplesmente invertendo seu sobrenome). De acordo com escritos Etteilla, ele primeiro aprendeu adivinhação com um baralho de 32 cartas destinadas a um jogo chamado Piquet, juntamente com a adição de sua carta especial, Etteilla. Este tipo de carta é conhecido como o significador e tipicamente fica como representação do indivíduo para ver o seu “destino”.

Embora o tarô seja o mais conhecido jogo para leitura da sorte,ele é apenas um tipo de baralho usado para adivinhação. Outros jogos incluem cartas de baralho comum e os chamados baralhos gerais, um termo que abrange todos os outros baralhos distintos do tarot tradicional.

Etteilla se voltou exclusivamente para o uso do baralho de tarô tradicional, o qual alegou possuir segredos ocultos da sabedoria antigo Egito. A premissa de Etteilla ecoou nos escritos de Court de Gébelin, que supostamente reconheceu símbolos egípcios em ilustrações de tarô.

Embora os hieróglifos ainda não tivessem sido decifrados (a Pedra de Rosetta foi redescoberta em 1799), muitos intelectuais europeus no final do século XVIII acreditavam que a religião e os escritos do antigo Egito continham “grandes percepções da existência humana”. Ao vincular as imagens do tarô ao misticismo egípcio, deram as cartas do tarot maior credibilidade.

Com base na “conexão egípcia” de Court de Gébelin, Etteilla afirmou que as cartas de tarô se originaram do lendário livro de Thoth, que supostamente pertencia ao deus egípcio da sabedoria. De acordo com Etteilla, o livro foi gravado pelos sacerdotes de Thoth em placas de ouro, fornecendo as imagens para o primeiro baralho de tarô. Com base nessas teorias, Etteilla publicou seu próprio deck em 1789 – um dos primeiros concebidos explicitamente como uma ferramenta de adivinhação e, eventualmente, referido como o tarot egípcio.

Etteilla foi uma das pessoas que realmente condicionou a leitura do tarot a conceitos esotéricos. Ele criou um baralho que incorporou todas as coisas de Court de Gébelin e seu livro “Le Monde Primitif”, que sugeria uma origem egípcia para o tarô e todos os tipos de segredos ocultos da sabedoria egípicia.

Entretanto, é importante não perder de vista que existe distinção entre as interpretações abstratas do tarô e o simples estilo de leitura “cartomântica” que prosperou nos séculos XVI e XVII, antes de Etteilla.

TAROT E OCULTISMO

Mesmo se você não estiver familiarizado com a leitura do tarô, você provavelmente já viu algumas cartas ou seus símbolos, como o famoso Rider-Waite, que tem sido continuamente impresso desde 1909. Nomeado pela junção dos nomes do editor, William Rider e do popular “místico” Arthur Edward Waite , o qual encomendou à Pamela Colman Smith as ilustrações das cartas, o popular Rider-Waite ajudou a trazer a ascensão do tarot “ocultista” do século 20 usado por “leitores místicos”.

O jogo de cartas de tarot Rider-Waite foi projetado para a adivinhação e incluiu um livro escrito por Waite em que ele explicou muito do significado esotérico por trás das imagens.

O ponto revolucionário é que os arcanos menores foram ilustrados, o que significa que Colman Smith incorporou o número de sinais dos naipes em pequenas cenas, e quando considerados em conjunto, eles contam uma história em imagens. Este forte elemento narrativo dá aos leitores algo para interagir e imaginar, em que é relativamente intuitivo olhar para uma combinação de cartas e derivar sua própria história a partir delas.

O deck Rider-Waite finalmente decolou em popularidade quando Stuart Kaplan obteve os direitos de publicação e desenvolveu um novo público para ele no início dos anos 70. Kaplan ajudou a renovar o interesse na leitura de cartas com seu livro de 1977, Tarot Cards for Fun e Fortune Telling, e desde então tem escrito vários volumes sobre o tarô, tornando-se um dos maiores editores de jogos de tarot de todos os tempos.

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